O Paradoxo do Café Brasileiro
O café sempre foi abundante, funcional, mas quase invisível. Abastecemos mercados inteiros, mas nos acostumamos a consumir sem perguntar. Aos poucos, a qualidade começa a ser protagonista
“Eu não tomo café”, minha amiga respondeu, enquanto eu analisava o cardápio da cafeteria que escolhi a dedo para tomarmos café da manhã naquele domingo.
Minhas sobrancelhas arquearam, indicando surpresa. Fiquei encarando-a por alguns segundos com o cardápio na mão, tentando entender como um adulto no Brasil não toma café. Franzi a testa, tentando lembrar como eu começava meus dias antes do café. Não tive sucesso.
Como a maioria dos brasileiros – mais precisamente, 78% da população, segundo dados do IBGE –, tomo café diariamente. E, como muitos, não comecei por prazer, mas por necessidade.
Na faculdade, manter o corpo funcionando e a mente minimamente alerta era um desafio diário. Muitas noites mal dormidas, matérias acumuladas e uma queixa recorrente: a dificuldade de concentração, que me acompanhava desde a escola. Foi aí que me apresentaram o café como estimulante.
“A cantina está sempre aberta; desce lá e pede um cafezinho.”
Eu descia as escadas soltando o peso do corpo em cada degrau, na tentativa de despertá-lo.
“Um cafezinho, por favor.”
Cinquenta centavos, um real, no máximo. Forte, amargo, agressivo. Se não fosse a coloração preto-carvão, eu o compararia a um shot de tequila. Difícil de engolir. Saber tomar café forte, mesmo amargo, era sinal de força e maturidade. Mas aquele da cantina era especialmente difícil. Para conseguir tomar, comprava sempre um chocolate Suflair junto. O doce amenizava o impacto; o chocolate aerado se desfazia na boca. Eram meus oito minutos de glória antes de voltar à batalha.
Sem perceber, aquilo virou meu ritual. Um momento de fuga da rigidez da sala de aula, um respiro. Durante muito tempo, essa foi minha relação com o café: funcional, automática, mas sempre aconchegante. Combinava com o peso das responsabilidades e trazia sentido. O cheiro me lembrava o afeto e a perseverança da minha mãe, que incendiava a casa com aroma de café antes de sair para trabalhar. O “quentinho” lembrava o capricho do meu pai, que desenhava flores com calda de sorvete na espuma do café com leite.
Hoje percebo o quanto essa relação se assemelhava à de um país inteiro com a bebida.
Crescemos vendo o café ser servido sem muita escolha, mas quase sempre com afeto. Em casa, na padaria, no restaurante, no balcão da lanchonete, ou sempre que visitávamos alguém. Entre tradicional e extraforte, cada um elegia o seu preferido sem saber exatamente por quê.
“Prefere forte ou fraco?”
Não fugia disso. Sempre quente, sempre rápido. Fazer café era um gesto tão repetido que passava despercebido. O desafio era acertar a quantidade de colheres de pó fino e preto para arrancar elogios. Acertando isso, o protagonista era outro: a prosa, o convite para sentar ao receber uma visita, o jornal lido em silêncio, a companhia de si mesmo. Tudo acompanhado do prazer simples de um café recém-passado.
A PROVA DE AMOR PARA UM PAÍS INTEIRO
“Café e amor são duas coisas que não se servem frias”, dizia o ditado.
Sobre o café não ser servido frio, hoje já podemos discordar. Já entre o café e o amor, existe outro elo: a história de que o café brasileiro só existe devido a um amor proibido. Diz a lenda que Francisco de Melo Palheta, em missão diplomática em 1727, se envolveu com a esposa do governador da Guiana Francesa e que, ao se despedir do amado, ela lhe entregou um buquê de flores com sementes de café arábica. Não há registros que comprovem essa história, mas gosto dela — porque carrega o significado afetivo da bebida.
O que a história documenta é que o café já era uma cultura de alto valor econômico na Europa e fazia parte da estratégia portuguesa de diversificar a produção agrícola nas colônias. O grãozinho viajante fez morada no Norte do Brasil, especialmente no Pará, e sua família foi se espalhando pelo país. Ao chegar ao Sudeste, outros grãozinhos encontraram condições climáticas favoráveis, decidiram ficar, constituíram família e cresceram a ponto de tornar o café a maior riqueza nacional — e o Brasil, o principal produtor do mundo.
Em 1912, o café robusta (ou conilon) chegou ao Brasil. Não há lenda romântica que sustente essa chegada. O grão era mais resistente, mais produtivo e mais cafeinado. Quando o país começou a se urbanizar de forma mais intensa, o robusta tornou-se um grande aliado das produções em larga escala. Mais acessível e abundante, era misturado ao arábica ou consumido puro, fazendo parte da rotina de grande parte da população brasileira.
Chamamos de primeira onda esse momento, onde o volume de café produzido começou a crescer exponencialmente e ele passou a ser amplamente acessível. Aconteceu entre 1930 e 1960 e o Brasil acompanhou o movimento mundial, principalmente com o crescimento do cultivo de robusta no Espírito Santo a partir de 1960.
Foi assim que conhecemos o nosso café preto — muitas vezes, erroneamente definido como “café de verdade”. Uma bebida passada de geração em geração, protagonista das cozinhas brasileiras: da própria casa, da casa da mãe ou da avó ou até mesmo do trabalho. O que importava era que ele estivesse ali. Não de onde vinha e seus processos.
E era assim que eu via o café, até tudo mudar em 2018. Fora do Brasil, conheci a cultura das cafeterias e o que me impactou não foi o sabor, mas sim o contexto. As pessoas saíam de casa para tomar café.
O DESTINO DOS SONHADORES
Fora do Brasil, as cafeterias eram destinos. Lugares de encontro, de permanência e de pausa. Eu observava as pessoas entre uma xícara e outra. Nos fins de semana, casais repetiam rituais: o mesmo lugar, o mesmo pedido, a mesma mesa. Durante a semana, profissionais escolhiam aquele ambiente para reuniões, porque ali o tempo parecia menos rígido, as conversas mais humanas, tudo fluía melhor — e a vida se romantizava nos detalhes do cotidiano.
Via pessoas sozinhas também. Estudando, escrevendo, observando a rua. Entrou uma mulher apressada, atrasada para o trabalho. “O de sempre.” Entraram dois homens, falando de negócios. Um músico, em especial, dizia precisar se sentar ali para criar suas melodias. Ver pessoas passando, ouvir o barulho da cidade, sentir o espaço. E o café era o fio que ligava tudo.
E não era só o café, mas a dança silenciosa dos talheres na louça; a vontade que o croissant tinha de se encontrar com a espuma do macchiato; o modo como o xarope de avelã escorria, desfazendo-se no espresso que, misturado ao leite, ganhava um desenho delicado feito pela barista. Era arte discreta, aberta à interpretação, afetando objetos inanimados diante dos meus olhos.
Eu nunca tinha me apaixonado tanto por um ambiente e naquele momento, não tinha consciência de que estava presenciando a segunda onda fora do Brasil. É aqui que entra o paradoxo do café brasileiro.
No período que conhecemos como segunda onda, entre 1960 e 1990 a Europa e os Estados Unidos iniciaram o movimento de expansão das cafeterias, das bebidas com leite e da valorização das marcas, tendo Starbucks como símbolo máximo desse movimento.
Enquanto isso, o Brasil continuava sendo o maior produtor, mas não foi protagonista. Pouco citado nas cafeterias e quase nunca nomeado como origem valorizada, já que teve sua imagem associada ao volume e não a identidade. Internamente, estivemos presos na primeira onda por décadas, tendo esse movimento tardio iniciado apenas nos anos 2000.
Por isso, ao voltar ao Brasil, senti o contraste. As pessoas não tinham o costume de sair de casa apenas para tomar café, e muitas bebidas com café sequer existiam. Lembro de pedir um café gelado e passar quinze minutos tentando explicar do que se tratava. Recebi uma xícara com pó de cappuccino diluído no leite e uma pedra de gelo. Um pouco contrariada, entendi que o que experimentei lá fora ainda não existia aqui. Passei a tentar reproduzir em casa.
“Nos Estados Unidos, as pessoas entendem realmente de café”, eu dizia enquanto preparava meu iced caramel macchiato. Meu cunhado riu. “Isso aí é um milkshake. Já ouviu falar de café 100% arábica?” Na época, achei estranho. Será que eu não entendia nada de café? Anos depois, entendi que ali estava uma das primeiras pistas do caminho que eu seguiria.
Com o tempo, percebi que essa mudança não estava acontecendo só comigo. Lembro de ouvir a expressão “100% arábica” com mais frequência nos meses seguintes, quase sempre associada à ideia de qualidade. Mais tarde, descobri que não era bem assim.
O PANO DE FUNDO
Antes das espumas, dos xaropes e dos desenhos na xícara, o café já cumpria um papel social. No século XVI, no Oriente Médio, surgiram as primeiras cafeterias — os kahveh khaneh. Eram espaços de vida pública, onde mercadores, poetas e pensadores dividiam mesas.
No século XVII, o café chegou à Europa, mais precisamente à Inglaterra, em Oxford, onde as cafeterias ficaram conhecidas como “universidades do centavo”: por poucas moedas, qualquer pessoa podia entrar, ler jornais e participar de debates. Em Paris, tornaram-se extensões da vida intelectual. Em Viena, ensinaram o valor da permanência. Ficar ali, voltar e sentar-se sempre na mesma mesa.
De certa forma, cada cafeteria carrega — ou, pelo menos, deveria carregar — essa herança invisível: a de ser um lugar onde o tempo afrouxa, a conversa encontra espaço e o cotidiano ganha vida.
O PERSONAGEM PRINCIPAL
Em 2023, já formada, ainda tomava café extraforte, sem açúcar. Com mais tempo e estabilidade, resolvi estudar café pela primeira vez. Encontrei uma cafeteria em Belo Horizonte e me inscrevi no curso.
“Nem sabia que existiam cafeterias assim aqui em Belo Horizonte.”
O grande dia chegou. Fui até a cafeteria para o primeiro encontro. Ao chegar, fui recebida com uma xícara de louça com a logo da casa. “Lindo”, pensei. No primeiro gole, entendi que aquele não era qualquer cafezinho passado na hora. Leve, percorreu toda a minha boca pedindo licença para se acomodar; revelou rapidamente sua doçura e preencheu o espaço com uma acidez equilibrada. Antes de ir embora, deixou um sabor de fruta que ecoou no céu da boca.
Ao redor, tudo sussurrava “escolhido com cuidado”. Métodos, balanças, grãos identificados à mão. Uma placa dizia: “Não precisa adoçar; nosso café já vem adoçado do pé”. Os baristas estavam ali para fazer café. Pedidos e retiradas, no balcão. Uniformizados com aventais bem trabalhados, carregavam uma aura de especialistas. Eu estava vivenciando o que chamamos de terceira onda, pela primeira vez: é possível conhecer a história por trás do grão e apreciar a qualidade do produto.
Ali comecei a entender tudo. Beber café passou a ser um gesto que revela critério. Menos quantidade, mais intenção. Essa mudança diz muito. Diz sobre um tempo em que as pessoas começaram a questionar o que consomem, a valorizar o processo e não apenas o resultado, a recusar o excesso e a buscar experiências que exigem presença.
Quando todos os alunos haviam chegado, descemos para os fundos da cafeteria, onde havia um laboratório. Máquinas gigantes de torra, balanças, métodos de extração de café, mas também béqueres, provetas, tubos de ensaio e outros elementos que despertaram a técnica química que existe em mim.
Ali compreendi, pela primeira vez, que o café não é só uma bebida: existe um mundo investigativo por trás dele, que analisa, questiona e responde. Um mundo que reunia os três pilares com os quais mais me identifiquei ao longo das fases da minha vida — química, engenharia e café.
Quando a professora perguntou quem sabia o que era café especial, percebi que eu não sabia nada. Saí dali encantada e decidida a estudar e falar sobre café. Naquela época, já existia um universo gigantesco de cafés especiais que eu desconhecia. Ainda éramos minoria — e havia um motivo para isso.
O QUE TEM DE ESPECIAL?
O conceito de specialty coffee (café especial) surgiu em 1974, quando a norueguesa Erna Knutsen passou a identificar cafés de qualidade superior e perfis sensoriais únicos, em contraste com os cafés-commodity — categoria à qual o café brasileiro era majoritariamente associado no exterior. Essa visão integrou um movimento global por qualidade ( a segunda onda do café ) que culminou na criação, em 1982, da Specialty Coffee Association (SCA), responsável por estabelecer os protocolos de avaliação sensorial. Desde então, cafés com pontuação igual ou superior a 80 pontos passaram a ser reconhecidos como especiais.
No Brasil, o interesse por esse modelo começou a ganhar força nos anos 1990, quando produtores passaram a buscar identidade e excelência. Em 1991, foi criada a Brazil Specialty Coffee Association (BSCA), visando reposicionar o café brasileiro no mercado de qualidade. Esse movimento se consolidou em 1999, com a chegada do Cup of Excellence ao país, uma das competições mais rigorosas do mundo. Assim iniciou-se a ascensão do café especial no Brasil.
Essa mudança não ocorreu de forma imediata no consumo interno. Por muito tempo, os cafés premiados continuaram saindo do país. Por isso, ainda hoje, ao falar de café, é comum ouvir: “Todo café bom do Brasil vai para fora; para a gente fica só o que é ruim”. Essa afirmação foi verdadeira por muitos anos. Mas o mercado interno de cafés especiais começou a crescer, e o Brasil passou a se reconhecer no próprio café.
O BRASIL TEM O GRÃO E TEM O MOLHO
Hoje, para mim e para muitos brasileiros, preparar café é um ritual. Escolher o grão, pesar, moer, medir a água, observar o tempo, sentir o aroma. Um gesto simples que traz presença ao início do dia e devolve ao corpo a sensação de escolha. Ao segurar uma xícara quente, carregamos todas essas camadas: a história de um grão viajante que, gradualmente, começa a se reconhecer nos lares que habita.
Em minhas viagens, o café brasileiro sempre se faz presente, seja na minha mala, seja no recipiente dos moedores das cafeterias que visito. Sem que eu percebesse, aos poucos, tomar café se tornou uma forma de voltar para casa. Especial foi entender que a qualidade exige escolha e intenção. Que menos pode ser mais. Que um ritual te devolve ao presente e que há beleza em prestar atenção.
No Brasil o café continua sendo nossa bebida afetiva, mas também somos capazes de reconhecer sua grandeza, em xícaras menores que carregam mais história. Sempre fomos o país do café, mas me questiono se vivemos as famosas 3 ondas do mercado cafeeiro no mesmo ritmo que o resto do mundo.
Mesmo sendo o principal exportador, não fomos nós que ditamos as “regras do jogo”. Como brasileira e entusiasta dessa bebida, sei de muitos desafios que enfrentamos, mas será que é possível melhorar o desempenho desse protagonismo?
Nos últimos anos o Brasil tem ganhado espaço e visibilidade em um mundo cada vez mais genérico, o Brazil Core é uma tendência de valorização da autenticidade brasileira, graças às redes sociais os olhos do mundo estão virados para cá. A hashtag “Brasil” ultrapassou 200 bilhões de visualizações no TikTok. O que me leva a refletir: já que demoramos a surfar nas ondas do café, talvez seja o momento de surfar na onda do protagonismo mundial do Brasil, para que o mundo também reconheça a grandeza do café brasileiro.










