Luxo é Viver de Acordo com seus Princípios
texto bruna ribeiro | fotos divulgação
Há uns dias, tive a oportunidade de reencontrar um ídolo. Estou falando de Vincent Stanley, Diretor de Filosofia da Patagonia, presente remotamente num encontro com líderes de impacto do Brasil. Que honra ouvir suas palavras conscientes e coerentes!
A Patagonia é a maior referência global em negócios com alto impacto positivo nas pessoas e no planeta. E sustentabilidade em si nunca foi o que norteou as decisões da empresa; o foco sempre foi qualidade e responsabilidade. Afinal, estamos falando de uma marca que nasceu para fabricar equipamentos de alpinismo, fundada por um alpinista, Yvon Chouinard (outro grande ídolo), obstinado por desenvolver produtos confiáveis, com durabilidade, funcionalidade e atenção ao detalhe.
Para Vincent, a noção de responsabilidade da Patagonia se desenvolveu nas experiências, na trajetória. Em 1989, por exemplo, a marca abriu uma loja em Boston usando os melhores materiais disponíveis, tintas com baixo VOC (compostos orgânicos voláteis) e drywall reciclado. Três dias depois, os funcionários tiveram dores de cabeça e náuseas. Uma investigação revelou a causa: formaldeído evaporando das roupas de algodão estocadas no porão.
O algodão convencional, cultivado sob alto uso de pesticidas e produtos químicos, estava literalmente adoecendo os colaboradores. A consciência de cuidado com os trabalhadores, o meio ambiente e os clientes orientou a decisão: a Patagonia migrou 100% da produção para algodão orgânico. Cortou um terço da linha de produtos, subiu os preços, reduziu as margens. Recuperou tudo em dois anos, porque convenceu os clientes e abriu um nicho de mercado que simplesmente não existia antes.
Estudar a qualidade do algodão ampliou o olhar da empresa para a agricultura e o sistema de alimentação, e buscar soluções saudáveis para esse ecossistema tornou-se uma meta natural. “Quanto mais você integra a sustentabilidade ao modelo de negócio, menos ela se torna um compromisso entre fazer dinheiro e fazer o bem. Mas trabalhamos com esse dilema de escolher entre o certo e o viável todos os dias.”, explica Vincent.
“A missão não redime um produto ruim. E se uma melhoria ambiental comprometer o desempenho, ela não entra”, acrescenta o Diretor de Filosofia. A consistência dessa postura é o que Vincent aponta como origem da influência da Patagonia, hoje uma organização constituída no modelo de stewardownership, no qual a empresa pertence ao seu propósito e não aos acionistas, com responsabilidade clara de cuidar do planeta, mostrando que suas práticas seguem suas palavras. O famoso: walk the talk.
Uma frase que não posso deixar de compartilhar: “O direito mais importante que temos é o direito de sermos responsáveis”. O que está traduzido nas práticas cotidianas: governança alinhada aos valores, métricas ambientais em cada produto e bem-estar dos colaboradores. Não é boato: os colaboradores da sede na Califórnia podem, sim, largar tudo e surfar em dias de ondas excepcionais.
Quando as condições chamam, eles vão. E uma dica importante: a empresa se recusa a tomar posição pública sobre causas sem relação direta com seu propósito. “Tomar posição sobre o que não é a sua área de atuação não é coragem, é oportunismo”, ressalta Vincent.
Por fim, ao ser questionado sobre quem o inspira, Vincent respondeu: os poetas. E poeta ele mesmo, assertivo, conclui: “Ter um propósito declarado só vale quando se vive o propósito real”.




