Ciao, Milano
O que a Milan Design Week 2026 reafirmou sobre a forma como queremos viver
por thatiana lima
Milão nunca entrega apenas mobiliário, lançamentos ou tendências. A cidade entrega experiência e sensorialidade em todos os âmbitos. E talvez seja justamente isso que faça da Milan Design Week um dos encontros mais relevantes para quem trabalha com criação.
A edição de 2026 deixou algo muito evidente sob o meu olhar: a busca por ambientes mais humanos, mais sensoriais e menos IA. Não como resposta contrária à tecnologia. Na verdade, ela esteve presente em quase tudo, mas como reflexo de um comportamento, de uma necessidade: o fator humano.
Entre instalações, exposições, marcas e comportamento nas ruas, o que se via era uma convivência cada vez mais livre entre culturas, materiais, texturas e linguagens. Uma multipluralidade que tirava os ambientes de qualquer sensação de neutralidade excessiva.
As composições pareciam construídas para provocar sensações diferentes ao longo do percurso. Em alguns momentos, acolhiam. Em outros, despertavam curiosidade. Havia ambientes silenciosos visualmente e outros carregados de informação, mas quase todos tinham algo em comum: uma relação mais próxima com o toque, com o corpo e com as sensações.
A sobreposição de tapetes apareceu de forma recorrente, trazendo profundidade visual através de diferentes tramas, desenhos e técnicas. O couro ganhou força não apenas no mobiliário, mas também em puxadores, acessórios, forros e aplicações trançadas.
Os adornos deixaram de ocupar apenas mesas laterais ou estantes e passaram a surgir em lugares menos previsíveis, quase como parte estrutural da composição, criando cenários próprios.
A influência oriental, especialmente japonesa, atravessou muitos ambientes, principalmente na forma de organizar os elementos e trabalhar os vazios. A cerâmica também ultrapassou o lugar do objeto decorativo e apareceu em superfícies inteiras e peças de mobiliário.
Outro ponto marcante foi a valorização das texturas manuais. Palhinhas naturais e sintéticas, trançados artesanais e superfícies com aspecto menos industrializado apareceram repetidamente.
Na paleta, o laranja, o bordô e os tons de verde dominaram boa parte da semana. Também chamou atenção o fortalecimento das grandes marcas de moda dentro da decoração. Mais do que collabs pontuais, muitas delas passaram a ocupar um lugar de protagonismo no pensamento criativo e no vanguardismo do design contemporâneo. Mas talvez o movimento mais forte desta edição tenha sido outro.
Em um momento no qual a tecnologia acelera processos e amplia possibilidades, o fazer manual reaparece com ainda mais relevância. Não como nostalgia, mas como lembrança de que existem tempo e mãos humanas envolvidos no processo criativo.
Tudo convidava ao toque. À aproximação. À experiência mais física dos materiais. Volto de Milão com a sensação de que os ambientes caminham para relações mais pessoais e menos padronizadas. Se existe uma tendência que atravessou praticamente toda a edição de 2026, foi esta: humanizar. Milão apenas reafirmou isso.










