A Força de Reverenciar a Própria Origem
texto bruna freire
Há algo de profundamente transformador quando um povo começa a se olhar com orgulho. E o fenômeno da escalada da autoestima latino-americana em curso merece nossa atenção.
Bad Bunny, Fernanda Torres, Wagner Moura, João Gomes, Bruna Marquezine, Shakira, Pedro Pascal, Peso Pluma e vários outros artistas latino-americanos têm passeado pelos tapetes vermelhos do mainstream global com algo em comum: autoconfiança. É a altivez de quem conhece, reconhece e enaltece a origem de onde vem.
Bad Bunny, um cantor porto-riquenho que sustenta o título recente de mais ouvido do mundo, foi a principal atração do Super Bowl, evento norte americano com foco no futebol estadunidense, onde a bola, oval pode ser pegada com a mão. Com uma performance quase integralmente em espanhol, inspirado em sua ilha caribenha, ele fez o show de maior audiência de toda a história do esporte, num estádio californiano. Suas únicas palavras em inglês, “God bless America” (Deus abençoe a América), seguidas pela citação de cada país do continente americano e um desfile de suas respectivas bandeiras, tinham ares proféticos.
Em protagonismo irrefutável, ele propunha uma nova narrativa de amor e união entre essas nações, acompanhada de frases de efeito estrategicamente posicionadas: “Juntos, somos América”, na bola oval de futebol; e “A única coisa mais poderosa que o ódio é o amor”.
No Brasil, a expressividade das raízes também se manifesta no fenômeno João Gomes. Sertanejo pernambucano, cheio de talento e humildade, com chapéu de couro e sanfona, ele emplaca o piseiro e se consagra como um dos artistas mais ouvidos do país nas plataformas digitais.
A autoestima dos artistas nativos dos países e estados fora do eixo central emociona, porque soa legítimo, certo e justo. Olhar para a própria história, valorizá-la e, a partir dela, construir um legado cultural tão potente atravessa fronteiras sem precisar pedir licença. A América Latina vive esse momento.
Os números também vêm temperados, tirando a frieza das estatísticas para provar, de forma concreta, que o orgulho latino se tornou uma força econômica, cultural e simbólica nos tempos atuais.
João Gomes acumula aproximadamente 3,576 bilhões de streams no Spotify, consolidando-se entre os artistas mais ouvidos do Brasil na plataforma; Bad Bunny foi o mais ouvido no mundo no Spotify em 2025, seguido por Taylor Swift, The Weeknd, Drake e Billie Eilish. Ele fez história no Grammy 2026 ao se tornar o primeiro artista a vencer “Álbum do Ano”, com um disco totalmente em espanhol, DtMF - Debí Tirar Más Fotos. Determinado a honrar sua terra, ele se dedicou a uma residência artística em Porto Rico, de trinta shows, com o sugestivo título “No Me Quiero Ir De Aqui” (Não Quero Sair Daqui). Rendeu impacto econômico estimado entre US$ 200 milhões e US$ 733 milhões, estimados pela Gaither International. Economia da atenção.
Com mais de 500 milhões de usuários de aparelhos móveis, os latino-americanos estão entre os consumidores mais ávidos de mídia social do mundo, representando uma audiência massiva que desperta o interesse da economia da atenção. Atenta, a Netflix projeta investir cerca de US$ 18 bilhões em conteúdo global em 2026, mantendo a América Latina como uma de suas regiões estratégicas. Apenas no México, a companhia destinou US$ 1 bilhão para produções locais, fortalecendo a indústria audiovisual do país. No Brasil, a inauguração de seu novo escritório em São Paulo — com investimento aproximado de R$ 141 milhões — simboliza a consolidação dessa expansão regional.
O que todos esses dados e histórias demonstram é que valorizar a própria história e validar o sentimento de orgulho de onde se vem é, incontestavelmente, uma força transformadora.
É sabido que quando uma canção em língua latina estoura globalmente, os aplicativos de idiomas registram picos de novos aprendizes. A Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI) afirmou que a América Latina foi um dos mercados de música gravada que mais cresceu em 2024.
No Brasil, a expressividade da cultura das rodas de samba sai da margem e ganha protagonismo. Os eventos de Carnaval sentem tração favorável somando-se a toda a indústria de entretenimento tradicional que já se constituiu ao redor das manifestações do samba, do axé e da música popular brasileira.
A economista italiana Mariana Mazzucato, professora da University College London (UCL), trouxe ao Brasil dados de pesquisas conduzidas por seu instituto em parceria com a UNESCO que reforçam o papel estratégico da cultura na economia brasileira. Segundo os estudos citados, cada R$ 1 investido em cultura e artes pode gerar até R$ 7,59 em impacto econômico, considerando efeitos multiplicadores sobre emprego e renda. Para fins de comparação, o setor automobilístico apresenta multiplicador estimado de apenas R$ 3,76 por real investido.
No caso do Carnaval, pesquisas da Fundação Getulio Vargas apontam que o evento movimenta cerca de R$ 4 bilhões, trazendo evidências da vitalidade da economia criativa como vetor de desenvolvimento.
A revista inglesa The Economist sustentou recentemente que a cultura latino-americana deixou de ser periférica para se tornar eixo central da indústria global do entretenimento, garantindo que “em 2026, a América Latina não apenas adicionará cor à cultura global, como ajudará a moldá-la”.
ASCENSÃO E AUTENTICIDADE
Essa ascensão não é de hoje, claro, mas se tornou mais ampla (menos nichada), consistente e diversificada. A tradição literária de Guimarães Rosa, Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa abriu caminho no século XX; no cinema, nomes como Guillermo del Toro, Alejandro Iñárritu, Walter Salles, Petra Costa, Kleber Mendonça Filho e Alfonso Cuarón consolidaram presença em Hollywood. A influência atravessa ainda livros, podcasts e artes visuais, estas cada vez mais presentes em museus de Nova York, Londres e Madri e em eventos como Bienal de Veneza e Art Basel Miami Beach. Nomes como Adriana Varejão, Oscar Murillo e Tania Candiani estão cada vez mais presentes nos circuitos globais.
O que todos esses dados e histórias demonstram é que valorizar a própria história e validar o sentimento de orgulho de onde se vem é, incontestavelmente, uma força transformadora. Não se trata de comunicar dentro das suas bolhas para os iguais, mas de, a partir de uma base sólida de identidade, dialogar com o mundo. Somos parte de uma cultura que decidiu abraçar quem somos, e quem vê “de fora” finalmente reconhece a beleza dessa autenticidade.
A América Latina vive um momento raro, porém nada efêmero, de autoestima elevada, e esse orgulho é traduzido como potência por quem vê de fora. Afinal, celebra a alegria como vigor, a identidade como resistência e a cultura como poderoso vetor de união e transformação. Quando um povo resolve se honrar e valorizar, cresce a autonomia do pertencimento, dentro e fora do seu território. Não há fronteira que apague o brilho que vem de dentro.





